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A Revolução Nasce dos Poros – II – Mídia Tática em São Paulo |
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11.05.2003
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Segunda e última parte do relato que conta como foi o Mídia Tática Brasil,
o que aconteceu e o que significou participar do evento. Paulo Amoreira apresenta personagens e situações.
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É em meio aos estrondos midiáticos que escrevo. Os ares transformados em véu de poeira sabor morte. Talvez como nunca lúcido dessa finitude arbitrária que nos é imposta pela mortalidade convicta. ‘Começamos a morrer logo que nascemos.’, disse-me uma vez um poeta bêbado. Sim. É verdade. Mas existem muitas formas de viver; muitas formas de saber que vale a pena estar aqui nesse estúpido e curto tempo.
Quando cheguei em São Paulo, para participar do Mídia Tática Brasil, não sabia mesmo o que ia encontrar. Apesar do evento acontecer simultaneamente em vários lugares – o que faz parte da proposta de descentralização MT – a participação cearense seria no espaço de convivência na Casa das Rosas*. Mas isso não me dizia muito, pois apesar de conhecer o trabalho de alguns grupos através da rede não-oficial de comunicação que se mantém entre os guerrilheiros culturais e de conhecer os fundamentos do que é MT, não conseguia imaginar o que seria reunir todos esses grupos e pessoas, cujo trabalho fica geralmente completamente obscurecido pelas matérias jornalísticas equivocadas que se faz sobre suas ações.

Estava muito atrasado. Todos os grupos já tinham ‘montado’ sua sala. Menos o nosso. Fui do aeroporto direto para a Casa das Rosas. Meus primeiros passos na nossa sala foram incertos. Depositei nosso material e, antes de começar a montar tudo, dei uma volta pra ver as outras salas. Foi então que comecei a me dar conta do que estava para acontecer ali naqueles dias. Cada sala tinha a marca do trabalho do grupo ocupante em cada detalhe. O tempo todo se falava essa expressão mesmo: ocupação. O que estava acontecendo não era uma exposição, com artistas contemporâneos e seus trabalhos enigmáticos expostos para a apreciação de uma visitação leitora de cadernos de cultura. Era uma Ocupação da Casa das Rosas. Como se surgindo do underground viessem grupos avessos a rótulos e padrões de organização formais e ‘tomassem posse’ de dado território numa zona autônoma temporária. Um certo caos sedutor e pulsante de estímulos de todo tipo. Provocações latentes que se transformavam com a interferência, participação e contribuição dos visitantes. Embora abrigasse trabalhos tão diferentes entre si, como a sala dos Telecentros, CMI, Projeto Bijari, Nomads, Atrocidades Maravilhosas, Rejeitados, Revista Ocas, Formigueiro, A Revolução Não Será Televisionada, Metáfora, Banda Paralela, Museu da Pessoa, o pessoal da ECA, o cartunista Latuff e A Cria; haviam muitos pontos de conexão entre os trabalhos. Todos lidavam com tecnologias em vários níveis – de registro à interatividade. A presença de câmeras de vídeo foi uma constante durante toda as fases. Qualquer coisa que acontecesse estava sempre sendo multiregistrada. Muitas entrevistas e múltiplos ângulos. Dessa forma nem a cena com o repórter global (veja texto anterior na Vertigem) escapou de ser capturada. Todos trabalham com diferentes formas de resistência cultural ativista. Todos denunciavam, através dos seus trabalhos as lógicas destrutoras da mídia oficial. Conscientização. Acesso aos meios de expressão midiáticos por parte de grupos excluídos. Transgressão. Irreverência. High Tech. Low Tech. Isso que provoca sempre uma mistura de riso e espanto: No Tech. Falarei mais sobre esse conceito e dos conceitos outros afins (como Não Música) qualquer dia desses. E muita, muita mesmo, camaradagem. Ao contrário do que – infelizmente – encontro com mais freqüência por aí, os Guerrilheiros Invisíveis são muito solidários. Ninguém estava lá por que estava recebendo cachê ou algo do gênero e, sempre todos estavam dispostos a ajudar na montagem e manutenção da sala de outros grupos. Em vários momentos, alguém se achegava e dizia: ‘Legal a sala de vocês. O que posso fazer pra te ajudar?’. Outra grande marca do evento: Trabalho colaborativo e Voluntário. Mais uma resposta ao modelo capitalista de associação por interesse financeiro. Nenhuma grana e muito tesão. Um gosto de juventude - essa mesma palavra que parece tão envelhecida ultimamente – me cerca de esperança que a natureza da humanidade contraria o que nos ensinam os senhores da guerra.

Ter a pretensão de retratar o que foram esses meus dias em meio às essas pessoas extraordinárias seria minimizar uma experiência que foi por demais significativa. O que está ao alcance da minha parca verve é tentar esboçar o cenário em que essas coisas todas se deram. Esse mesmo significado da palavra doação. Entrega incondicional. Sem permuta material. Os que se reuniram nesses dias esfuziantes – a eletricidade e excitação estavam mesmo no ar – traziam a revolução em cada poro. O desejo de transformar conseqüentemente a realidade, mas sem a ingenuidade de subestimar o mainstream.

Essa energia explodia em verdadeiros happenings de resistência cultural em vários momentos. É preciso dizer que todos os trabalhos tinham também esse caráter de ‘trabalho em processo’. Isso significa que as salas eram modificadas pela participação e interferência dos visitantes - como na sala do Bijari e seus bilhetes públicos e CMI e suas transmissões e entrevistas multimídia em tempo real - e o espaço era muitas vezes invadido por artistas performáticos, como atores do grupo de teatro situacionista Manufactura Suspeita (que fez um oficina da qual participei), que caminharam, devidamente caracterizados em seus personagens, pela casa pra levar todos pra peça que foi encenada nos jardins. Ou do grupo Batukação que entrou na sala de entrada da Casa das Rosas com o poder dos seus tambores e latas, trazendo um arrepio tribal pra epiderme de todos. Outro grande momento foi quando os displays publicitários com imagens de ‘famosos’, usados na instalação do grupo A Revolução Não Será Televisionada, foram ‘incorporados’ por visitantes e participantes do evento e saíram em passeata, entrando no Shopping Paulista – para pânico dos seguranças – em bancos, circulando pela cidade e depois indo até o Sesc, onde fizeram uma pequena performance no meio da palestra sobre Ciberativismo, Copyleft, Hackivismo e Inclusão Digital. Mais tarde, numa típica expiação midiática, todos os displays foram queimados nos jardins da Casa das Rosas. Muitas coisas acontecendo. Ao redor da casa, nas ruas, também. Algumas simultâneas. Difícil decidir onde estar em cada momento.

A mostra de vídeos, que ocorreu ao lado da fantástica sala do A Cria, reuniu um impactante conjunto de obras audiovisuais de jovens realizadores onde a linguagem experimental e o conteúdo ativista eram uma constante imprevisível. Muito do que vi ali reforçou minha indignação diante das forças de opressão que não são denunciadas pelas mídias oficiosas e abriu minhas concepções estéticas em novas fronteiras de expressão. Conversei com o Daniel Lima, um dos responsáveis por essa mostra e estaremos trazendo ela pra Fortaleza em breve.

Tatiana Wells, Gisele Vasconcelos, e Ricardo Rosas os organizadores disso tudo estavam em todos os lugares ao mesmo tempo. Ainda não entendi como eles conseguiram fazer isso.
Eram todos muito jovens. Grupos e visitantes. Uma bela diversidade se instalou nas minhas retinas nesses dias embriagados de liberdade.
Punks circulavam e gostavam de tudo. Filhos traziam seus pais e caminhavam juntos, tentando apreender tudo conversando bastante. Gente de todo lugar do país. Derek Holzer, do Next Five Minutes (Holanda), entrevistava o pessoal dos grupos. DJs do Interfusion pilotavam seus pick-ups nos jardins. Membros da Rádio Muda/CMI desafiavam a polícia federal a fecharem a rádio pirata que esteve no ar durante todo o evento e que atendia pelo provocante nome de Pega Eu FM. A polícia federal não veio. E a rádio pirata ficou no ar. Transmitindo em tempo real entrevistas e música, e acabou também registrando um momento extraordinário: quando um músico popular, um senhor de uns 80 anos, cantou com todos nós, lá na sala do CMI suas músicas, acompanhando-se, luxuosamente, pela gaita habilidosa de Mestre Laurentino. Virou festa. A direção da Casa das Rosas acabou tendo que, ‘convidar’ todos a sair, prevendo danos que a edificação histórica podia sofrer com tanto entusiasmo.

Muitos risos e cumplicidade. Confirmo, então, para destruir de vez com minha sombra de filho de 68, que a Revolução é sim necessária; sedutora; mutante; festiva e intensa. Bem diferente da sisudez ameaçadora que insistem em lhe pintar na face.
A Revolução Nasce nos Poros. Naquele ponto mesmo da nossa pele onde o que está fora encontra o que está dentro. Nos poros nem existem cor, credo ou cultura. É mais que ‘atitude’ - um estar estético esvaziado de conteúdo. É algo para ser vivenciado. Mais que um anúncio de rebeldia publicitária fashion, a Revolução é um estado de espírito que se transmuta em verbo. Ação. Reação. Coisa pra quem não esquece do que é feita a realidade real.
Muito difícil não ser contaminado pela vida que pulsa aqui. O desejo é levar mesmo esse convite adiante: Seja um Vietcongue Midiático (nome da oficina do Latuff, cartunista e ciberativista).
Se embaixo da máscara tem um rio: menos máscara e mais riso.
Grupos de ocupação – QG Casa das Rosas
Rejeitados – linkados pela agitadora cultural e artista Graziela Kunsh, os Rejeitados são na verdade um “combro” de grupos de artistas underground de todo o Brasil, praticantes de intervenção urbana, prankterismo e outras subversões artísticas.
Memelab/Projeto Metáfora – MetaFora é um projeto facilitador da criação e do desenvolvimento descentralizado de novas idéias. Trabalha com democratização do acesso à informação. Com valorização da voz das comunidades e sua inserção em contexto de globalização e com a formação da redes sociais mediadas pela tecnologia.
Eca/TV USP – a TV USP integra a programação do canal universitário (cnu), que une o ritmo e a estética de TV com a uma análise acadêmica. A programação é semanal e pode ser vista pelo canal de TV a cabo de São Paulo ou pelo site www.usp.br/tv http://www.usp.br/tv
Museu da Pessoa – museu virtual fundado em 1997 em que se pode incluir a história da sua vida nele, além de pesquisar biografias e fotos de seu acervo permanente. Com a participação de documentaristas, fotógrafos e jornalistas, o Museu pretende preservar histórias do cotidiano.
Anomia – anomia é um grupo que trabalha com ativismo artístico voltado para criar interferências urbanas, congestionamento cultural e sonoro de paisagens. A intenção é resgatar conceitos Situacionistas como psicogeografia (em que a noção de espaço está nos pontos de maior destaque para cada indivíduo).
Nomads – coletivo de arquitetos da USP voltados para soluções e ações no ambiente urbano. Possuem enfoques multidisciplinares, que engloba arquitetura, arte e computação.
A Cria – iniciativa que não se enquadra como editora, produtora ou gravadora, mas que funciona como a soma desses segmentos. Busca recursos e soluções para escoar a produção, agem em coletividade, um sempre ajuda a viabilizar o trabalho do outro.
A Revolução Não Será Televisionada – produção independente para TV realizada por artistas de vídeo-arte, intervenção e performance que trabalham com humor e consciência política.
Banda Paralela – voltada para a criatividade coletiva e descentralizada, produz animação, cenografia, webdesign, design gráfico, ilustração, programação, roteiro e fotografia – todos ligados à arte, diversão e ao prazer.
Bijari/Realidade Transversa x Antipop – formado há cinco anos por arquitetos e artistas, Bijari é um centro de criação de artes visuais e multimídia. Desenvolve projetos em diversos suportes e tecnologias e atua entre os meios analógicos e digitais propondo esperimentações artísticas, sobretudo de caráter crítico. Intervenções urbanas, performances, vídeo-arte, design e webdesign, tornando-se meios para estabelecer possibilidades de vivências onde a realidade é questionada.
Formigueiro – grupo interdisciplinar de discussão e intervenção em mídias. Apropriam-se de formatos de alta ou baixa tecnologia para gerar trabalhos coletivos em espaços públicos.
CMI – fundado por ativistas de São Paulo há 2 anos, o CMI Brasil não é apenas um site, mas uma rede de coletivos de ativistas produtores de mídia. Faz parte da rede mundial Indymedia, que busca democratizar o acesso e a produção da informação.
OCAS – revista publicada pela Organização Civil de Ação Social, associada à Internacional Network of Streets Papers. A revista é vendida por moradores de rua do Rio de Janeiro e São Paulo, previamente cadastrados, inclusos também no processo de produção da revista. – desde o projeto editorial de cada exemplar até posterior retorno das vendas.
Latuff – cartunistas que acredita no combate semiótico. Ele criou a “Zapatista Art Gallery”, site na Internet que reúne cartoons sobre a luta dos guerrilheiros mexicanos. Cuida também de “Abandono”, mostra fotografia a respeito da exclusão social nas grandes cidades e “Trial by Cartoon”, um tribunal virtual para crimes contra direitos humanos no mundo.
Telecentros – O Telecentro ou Ponto Eletrônico de Presença (PEP), é um projeto da Coordenadoria do Governo Eletrônico da Prefeitura de São Paulo que combate à exclusão digital. Espalhados pelos bairros carentes, são a porta de entrada da comunidade à web e aos serviços e informações prestados aos cidadãos pela Prefeitura, Estado e Governo Federal.

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